Texto do pedagogo Marco Aurélio Rodrigues Dias

Lázaro de Freitas e as Provas Espirituais

O pai biológico de Nhá Chica reencarnou como Lázaro de Freitas. Foi portador de hanseníase. Escolheu esse tipo de vida para resgatar algumas dívidas de vidas passadas, dentre as quais se contava a sua falta moral por não assumir os cuidados e a educação de Nhá Chica. Devido à doença, o apelidaram de Lázaro. Isso tudo ocorreu no início do século XIX.

Na vida passada, Lázaro viveu em Diamantina, em Ouro Preto e em outras cidades mineiras onde o garimpo do ouro gerava riqueza. Ele era artista e ganhava a vida esculpindo estátuas barrocas e decorando igrejas. Naquela época, em São João Del Rei, no início de 1800, sendo um homem jovem, conheceu Isabel Maria, uma jovem negra, ex-escrava, com quem teve uma filha (Nhá Chica). Mas, sem juízo, repudiou a família que acabara de formar. Não cuidou da moça e nem da criança que gerou com ela. Uniu-se ao grupo de amigos artistas e foi trabalhar em igrejas no município de Vila Rica. Esqueceu seu compromisso e negligenciou sua responsabilidade. Mas, não sendo de todo inconsciente, sempre pensava na filha e na moça que iludiu. Viveu infeliz. Mesmo quando estava nas rodas de amigos, bebendo e frequentando as casas onde as mulheres vendiam carinho, jamais esquecia seu erro, e, mesmo arrependido, continuava naquela vida. Pouco tempo depois, ele desencarnou, levando consigo essa falta grave. Do umbral, durante boa parte do século XIX, ficava apreciando a obra de caridade e amor que Nhá Chica implementava na cidade de Baependi, com a ajuda espiritual da alma de Joana de Angelis. Reconheceu seu erro. Precisava, pois, quitar esse e outros débitos de vidas passadas. Planejou, quando desencarnado, uma reencarnação onde fosse rejeitado pelas pessoas da sociedade e se sujeitasse a várias privações e intempéries, como resgate cármico da ação de ter rejeitado a filha.
Logo depois que Nhá Chica desencarnou, em 1896, e se reuniu com seus entes queridos, Lázaro reencarnou em Baependi, a mesma cidade onde sua filha viveu boa parte da vida. Nasceu em uma família pobre e desestruturada. Foi abandonado e morou com várias famílias, mas sempre rejeitado. Ao se tornar adulto, inconsciente do projeto de vida que fizera, virou andarilho, parando aqui e ali, sem paradeiro, até que desenvolveu a hanseníase. Foi com muita dor que conseguiu passar pela prova que impôs a si. Nesse período, o espírito de Joana de Angelis se acercou do espírito de Nhá Chica e o levou a ver a vida que seu pai estava levando em Freitas, um lugarejo próximo ao município de Soledade de Minas. Observaram que as pessoas fugiam dele, pois tinham medo de pegar a doença. Isso ocorreu numa época com poucos recursos científicos na Medicina. Havia muito preconceito contra a hanseníase. Naquela etapa da vida, já cansado e sem força física para continuar peregrinando, o pobre coitado cavou uma toca num barranco, perto da estação ferroviária de Freitas, e lá viveu os últimos anos de sua vida. Não tinha família. No entanto, embora a doença lacerasse sua face esquerda, sua alma estava sequiosa de fazer o bem para quitar um pouco das suas dívidas de vidas passadas. Então, tendo fugido do convívio humano, principalmente para não causar mal-estar nas pessoas, foi viver no mato. Do plano espiritual, Nhá Chica e Joana de Angelis insuflaram em seu espírito mensagens espirituais encorajando-o a fazer a obra de caridade que planejara antes de nascer. Mas como praticar o bem ao próximo? As pessoas não deixavam que ele se aproximasse delas. Fugiam quando o viam. Então, por meio das energias de encorajamento que recebeu da filha desencarnada, ele começou a praticar a caridade de forma diferente. Subia nas árvores e devolvia aos ninhos os filhotes de passarinhos que haviam caído. Observava os próprios passos para não pisar nas formigas e nas lagartas. Colhia sementes caídas e cavava buracos para enterrá-las. Sentia piedade e sofria pelo fato de que elas não pudessem germinar. Praticava ações de caridade com os animaizinhos indefesos que encontrava. Ele criou uma empatia tal com a natureza, que praticou o amor ao próximo da forma mais genuína. Ao invés de nutrir ódio pelas pessoas que fugiam dele, despertou o amor pelos seres vivos que viviam à sua volta no mato. Desenvolveu a empatia-mediunidade com a natureza. Conforme já foi dito, antes de reencarnar, com a ajuda dos auxiliadores espirituais, ele mesmo projetou a vida em que seria rejeitado pelas pessoas, para resgatar a dívida moral com a família que rejeitou na encarnação anterior.
Quando desencarnou, Lázaro de Freitas estava completamente consciente do processo e, tendo quitado muitas dívidas morais de vidas passadas, foi conduzido aos planos superiores da existência. Pode-se agora imaginar quantos benefícios a pessoa alcança se buscar a conexão com o bem. Agora, se Lázaro de Freitas, sendo leproso e repudiado pela sociedade, encontrou um meio de praticar a caridade e desenvolver amor pelo próximo, qualquer pessoa, perfeita ou imperfeita, pode também, com facilidade, avançar na evolução, amando os semelhantes, praticando a caridade e sentindo compaixão pelos que sofrem. Observe-se que Lázaro não deu de comer aos passarinhos, não alimentou as lagartas e nem distribuiu roupas para as formigas. Ele, que não tinha nada para dar, ainda tinha muito mais do que roupas e alimentos, tinha o amor e a caridade. Pode-se praticar a caridade de diversas maneiras. Todas as formas de caridade, feitas com amor e não para chamar a atenção, são próprias para impulsionar a evolução espiritual. Quem viu Lázaro preocupado com as formigas e os filhotes de passarinhos que caíram do ninho? Quem o viu salvando as abelhinhas que ficaram presas nas teias de aranha? Ninguém! A caridade não é para ser vista. No entanto, na estação ferroviária de Freitas, as pessoas erigiram um oratório para Lázaro, a qual foi o pai biológico de Nhá Chica na vida passada. Lá mesmo, ele está enterrado.
Quando achardes que é pesado o vosso fardo, lembrai-vos dos que sofrem à vossa volta. Procurai o bem. Não andeis com o mal, mas com o bem. Procedendo assim, despertareis os mais belos laços afetivos com os seres vivos que vos cercam e criareis um canal de mediunidade com Deus. Que a história da vida de Lázaro de Freitas sirva de encorajamento para uma vida de fraternidade.








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